Acordo Mercosul–União Europeia: Indústria do alumínio vê avanço estratégico com ressalvas sobre arquitetura regulatória europeia
A Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) avalia positivamente a conclusão do Acordo Mercosul–União Europeia como janela estratégica para ampliar o acesso da indústria brasileira ao mercado europeu, caracterizado por alto valor agregado e demanda crescente por materiais de baixo carbono.
O cronograma de desgravação tarifária em até 10 anos, e reciprocidade em até 15 anos para produtos europeus, pode fortalecer fluxos comerciais bilaterais em contexto em que a transição energética global eleva a demanda por alumínio em setores como mobilidade elétrica, energias renováveis e construção sustentável.
- Calendário e próximos passos
Embora a assinatura represente avanço político relevante, a entrada em vigor depende de ratificação pelos parlamentos dos países do Mercosul e da União Europeia, processo este que pode estender-se por meses ou anos, a depender das dinâmicas legislativas nacionais e de eventuais exigências de adequação regulatória.
A indústria brasileira do alumínio seguirá acompanhando o processo de forma propositiva, contribuindo para que o acordo resulte em comércio mais aberto, previsível e alinhado aos objetivos globais de descarbonização.
- CBAM: Reconhecimento parcial das vantagens competitivas brasileiras e limitações técnicas do CBAM para o alumínio
A entrada em vigor do CBAM (Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira) em janeiro de 2026 adiciona camada de complexidade ao cenário comercial. O instrumento, que taxa importações com emissões de carbono superiores às médias europeias, representa avanço na precificação de externalidades climáticas, mas apresenta lacunas metodológicas que podem prejudicar produtores com matrizes energéticas limpas.
O mecanismo considera exclusivamente emissões diretas (Escopo 1) do processo produtivo, desconsiderando emissões indiretas da matriz elétrica (Escopo 2) — componente que responde por até 60% da pegada de carbono do alumínio primário em produção baseada em carvão.
Essa escolha metodológica penaliza desproporcionalmente o alumínio brasileiro, produzido majoritariamente com hidroeletricidade, cuja intensidade de carbono no Escopo 2 é até 85% inferior à média global. Enquanto a pegada média da produção brasileira situa-se em torno de 4-6 toneladas de CO₂ por tonelada de alumínio, processos baseados em combustíveis fósseis ultrapassam 16 toneladas — diferença que o CBAM, em sua configuração atual, não captura integralmente.
A ABAL reconhece a importância de instrumentos que incentivem descarbonização global, mas defende que mecanismos de ajuste de carbono adotem:
- Transparência metodológica alinhada a padrões internacionais (ISO 14067, GHG Protocol);
- Inclusão de Escopo 2 para refletir reais diferenças de pegada de carbono entre matrizes energéticas;
- Reciprocidade regulatória, evitando que instrumentos unilaterais distorçam competitividade ou funcionem como barreiras comerciais disfarçadas.
O setor seguirá dialogando com autoridades brasileiras e europeias buscando contribuir para aperfeiçoamentos técnicos que garantam isonomia competitiva e reconhecimento adequado das vantagens climáticas do alumínio brasileiro.