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4 de outubro de 2019
ABAL apoia posicionamento do presidente da Abrace, Paulo Pedrosa, sobre a abertura do mercado de gás

Um dos maiores especialista do setor de energia no País, o ex-secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa, alerta que o modelo que o governo de São Paulo desenha para o mercado de gás natural vai tirar indústrias do Estado por causa do preço mais alto da energia.

“O que se percebe até o momento dos movimentos do gás em São Paulo é que vão levar a preços muito maiores do que o modelo adotado pelos outros Estados”, diz Pedrosa, atual presidente da Abrace, associação que reúne as indústrias grandes consumidoras de energia. “Estão ilhando São Paulo dessa abertura de mercado”, adverte.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Pedrosa diz que o conflito entre o velho e o novo faz com que o Brasil tenha uma das contas de energia mais caras apesar do grande potencial energético.

“O Brasil é o País da energia barata e da conta cara”, critica. Para ele, o Brasil não pode desperdiçar a chance de abertura do mercado de gás para um ambiente de maior competição.

O que diferencia hoje Brasil do resto do mundo no setor de energia?

Energia é uma vantagem comparativa do Brasil. Nenhum outro País tem essa benção energética: sol e vento espetaculares, potencial hidrelétrico extraordinário, geração de biomassa fantástica (a partir das usinas de etanol e açúcar), temos o gás do pré-sal, que são 100 milhões de metros cúbicos por dia. Como podemos ter todo esse potencial e, ao mesmo tempo, uma das energias mais caras? Se houvesse um planejamento estratégico para construir um futuro de País, a energia seria algo essencial, e estamos desperdiçando essa chance.

Por que isso acontece?

Todo esse conflito político do dia a dia, todas essas questões políticas e econômicas que dominam a agenda, a mídia, é o resultado, na superfície, de algo muito mais importante que acontece lá nas profundezas, que são as “placas tectônicas” da economia e das escolhas que o País vai fazendo. Nós seremos um País numa visão mais de mercado ou mais intervencionista? Nós seremos mais pró-mercado ou mais pró-empresarial? Essas forças estão em jogo e são muito visíveis no setor de energia. Como é um setor muito comandado pelo governo, elas conseguem se articular. A gente vê todo mundo com a lógica de querer alugar ativo sem risco para o consumidor e cobrar custos mediante encargo.

Por que a energia no Brasil é tão cara?

Não é das mais caras, mas é o paradoxo: o Brasil é o País da energia barata e da conta cara. A energia é barata, mas você pendura nela encargos setoriais, impostos, taxa de iluminação pública, mais da metade do que é pago já não é energia, são coisas que foram sendo penduradas na conta de energia, inclusive impostos. E ainda tem subsídios implícitos que estão no preço da energia e não estão destacados com transparência na minha conta. Energia está virando subproduto de outras coisas que dominam a conta.

O ministro Paulo Guedes disse que a energia pode cair 40% com as mudanças para o gás natural. É possível?

Sim. O poder do governo não está de fazer, mas na criação das regras que vão fazer o mercado funcionar. Se nós não destruirmos essa oportunidade, se ela não for capturada por essas engrenagens do passado, ela vai promover o desenvolvimento do País. Hoje, há um conflito. Há a possibilidade real de que a gente tenha um modelo de gás no Brasil em que os grandes volumes vão escoar, vindo para o território nacional para produzir energia elétrica competitiva para ser usada na produção industrial competitiva.

Mas esse não é modelo nacional para todos os Estados?

Não, porque no Brasil o gás é decidido Estado por Estado. Os Estados estão competindo e fazendo escolhas sobre que modelo eles vão querer, se vão privilegiar os serviços locais de distribuição de gás, manter o gás competindo com o diesel, se vão transformar as distribuidoras em enterradoras de tubo, e alugar esses tubos, sem risco, que é um modelo tradicional, ou se vão abrir seus mercados para um ambiente competitivo. Vemos Estados como o Sergipe com o governo atuando de uma forma articulada para fazer do Estado um campeão na abertura do mercado de gás e levar indústrias. E vemos Estados grandes, como São Paulo, dando sinais de que vão fazer uma aliança diferente, em torno da economia de São Paulo, quase que verticalizando o gás em São Paulo.

Qual o risco do modelo de São Paulo?

Estão ilhando São Paulo dessa abertura de mercado que o governo federal está promovendo e fazendo uma escolha que vai trazer investimentos em quantidade, mas naquela ótica de que o consumidor vai pagar tudo de forma compulsória, na tarifa da distribuidora, e não investimentos competitivos, e vão com isso fechar a porta do Estado para os grandes volumes de gás que viriam com a abertura do mercado. O que se percebe até o momento dos movimentos do gás em são Paulo é que vão levar a preços muito maiores do que o modelo adotado pelos outros Estados.

ABAL OPINA

“Energia disponível e a preços competitivos é condição indispensável para a indústria nacional retomar o seu crescimento e fazer a roda da economia girar. O País não pode perder a chance de modernizar o setor – em especial o de gás, cuja abertura vive momento-chave. Mas o Estado de São Paulo corre o risco de adotar um modelo que afugentará investidores e acabará penalizando os consumidores”, afirma Milton Rego, presidente-executivo.

Fonte: Estadão